O Skate de Terno


Ele era um garoto “sem futuro”, gostava de andar de skate o dia todo, tatuagem nos braços, boné aba reta, as gírias de sempre, os machucados no joelho de praxe, apenas mais um ócio do ofício, exatamente aquele cara que você evita na rua por volta das 22:00 horas. Mas independente de tudo ele carrega seu sorriso. Ela, o oposto, estudiosa, certinha, focada em passar em um concurso, ama sorvete de casquinha e pipoca, daquelas do cinema com muita manteiga. Nunca o evitava na rua, passava pela pista de skate apenas para ver o olhar dele a seguir sem se incomodar, na verdade ate mais por gostar.

O namoro deles começou meio que sem jeito, de uma forma estranha demais, depois de seu skate acerta-la na canela de uma forma que arrancou sangue, como pagamento a levou em uma sorveteria e dali, as saídas se tornaram frequentes cada vez mais. Encontros “sem querer” na rua, aconteciam todos os dias, mesmo contra os pais dela que não admitiram aquele namoro “sem futuro”, aquele “mala” não era o suficiente para sua filha.

Ao passar dos meses o skate ficou mais de lado, supletivo foi realizado, algumas tatuagens retiradas e uma forma mais sociável foi aderida por ele. Ela ficou mais solta, mais brincalhona, aprendeu a andar de skate e ate arriscou uma tatuagem, mesmo que pequena, no pulso só para “diferenciar”. Conseguiu o concurso que almejava e convenceu seu namorado a tentar uma vaga de trabalho, o terno era estranho em seu corpo, o moleque despojado deu lugar a um quase executivo de terno com seu sorriso de sempre.

Eram estranhos ao olhar dos outros, porém incríveis aos seus, a mudança era necessária e na vida profissional como se era de esperar ficaram distantes, ela cada vez mais a cima e ele fixado no mesmo trabalho, conheceram novas pessoas, alguns mais interessantes que os outros. Hoje ele se lembra dela com carinho, não a vê mais, mudou para outra cidade, começou uma família com algum executivo que conheceu, ele continua na empresa com alguns cargos acima de que quando entrou porém feliz e satisfeito, a caminho do trabalho vê o skate jogado em um canto e relembra aqueles velhos tempos, dos pequenos encontros e troca de olhares singelos, da menina que o ensinou a vestir um terno.


Holmes

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